By Carla Castro
Desde menina, eu era grudada na Cassinha feito carrapato. Só que, em vez de enfiar o bico na pele, eu cravava nela os olhos. Ficava olhando. A alegria, a esperteza, aquele jeito ligeiro de quem parecia ter nascido sabendo coisas que o resto de nós ainda precisava aprender.
Ela era pequenininha. Eu, gordinha. Deram-nos os nomes de A Formiga e A Cigarra tanto pelos tamanhos quanto pelo comportamento, porque Cassinha inventava o mundo, e eu ficava ali, assistindo à inauguração.
Era ela quem comandava as brincadeiras, naturalmente. Tinha vocação para as traquinagens, sobretudo as que envolviam algum perigo.
Uma vez, resolveu tirar a tampa de uma caixa para transformá-la num escorregador. A ideia era excelente, não fosse um pequeno detalhe: as bordas da tampa eram arrematadas com lata. Cassinha escorregou, a lata entrou na carne macia da mão, e o sangue saiu em quantidade suficiente para nos convencer que aquela não era uma boa brincadeira. Precisou dar pontos.
Noutra ocasião, descobriu que pular do guarda-roupa até o chão era uma espécie de voo. O pouso, entretanto, não correspondeu à ambição: quebrou uma perna. Ficou muitos dias engessada.
Eu assistia a tudo com meus olhos arregalados de admiração. E havia uma vantagem prática nessa minha devoção: como Cassinha testava primeiro os brinquedos, eu quase nunca me machucava. Ela era a pesquisadora, eu era a consumidora. Uma espécie de ciência experimental familiar testada por ela. Eu só ia depois de aprovada.
Também me lembro das brincadeiras com a querida Regina. O tio Zezé, coitado, deve ter gastado alguns currais de vacas leiteiras para repor os óculos que as duas quebravam nas férias da roça. Houve uma vez que eu fiquei tão comovida que pedi para levar a culpa, porque minha "capivara" era limpa. Não deixaram. A honestidade era mais forte que o medo da reprimenda.
Mas havia ocasiões em que as maquinações de Cassinha ultrapassavam a simples travessura. Eram brilhantes. E eu, mais uma vez, lá estava: observando, admirando, aprendendo.
Nas deliciosas férias na roça dos padrinhos Fernando e Marta, havia um banheiro de fossa. Os padrinhos viviam se lamentando dos pintinhos que, sabe-se lá como, acabavam caindo naquele buraco fundo e morriam por lá. Era uma tristeza recorrente.
Até que Cassinha tomou conhecimento do problema.
Minha irmã era pequena, mas não era de deixar uma questão grave sem providências. Arranjou papel e lápis e redigiu, com a autoridade de quem baixa um decreto:
“Mantenha essa porta fechada.”
E pronto.
Norma promulgada, problema resolvido. Os pintinhos estavam salvos, os padrinhos podiam sossegar, e o mundo, pelo menos naquele pedaço de Minas, voltava a funcionar. Cassinha, sem diploma nem solenidade, havia descoberto uma verdade que muito legislador ainda não entendeu: às vezes, uma boa solução começa com um pedaço de papel e uma frase curta.
Eu observava. Admirava. Aprendia.
Em outro dia, chegamos à casa do vovô e encontramos a porta trancada. Nós duas queríamos entrar, mas a chave estava do lado de dentro, pendurada no buraco da fechadura. Para uma pessoa comum, era um contratempo. Para Cassinha, era apenas um convite à inteligência.
Ela olhou pelo buraco da fechadura, estudou a situação e pegou o tapete da varanda. Com a precisão de quem já tinha feito aquilo em outras encarnações, colocou-o por baixo da porta. Depois arranjou um graveto e, com paciência, foi mexendo na chave até fazê-la cair sobre o tapete.
Puxou o tapete para fora.
E lá estava a chave.
Cassinha mostrou o achado com a tranquilidade dos grandes inventores, como se recuperar chaves por baixo de portas fosse uma habilidade corriqueira da humanidade.
Eu continuava ali, de olhos arregalados.
Observando. Admirando. Aprendendo. Incorporando.
Hoje, quando penso na nossa infância, vejo que eu não estava apenas grudada na minha irmã. Eu estava aprendendo a olhar o mundo pelos olhos dela. Enquanto ela fazia, eu pensava. Enquanto eu talvez ainda estivesse tentando entender o tamanho de um problema, Cassinha já tinha arranjado um graveto, um tapete e uma solução.
Uma menina de pernas ligeiras, mãos curiosas e cabeça cheia de invenções, que às vezes terminava com pontos na mão ou gesso na perna, mas nunca parecia perder a vontade de descobrir o que havia do outro lado.
Minha irmã pequenina, mas gigante.
Porque Cassinha nunca foi apenas a menina que inventava travessuras.
Foi a menina que me ensinou, sem dar aula nenhuma, que o mundo está cheio de portas fechadas — e que quase sempre vale a pena tentar puxar a chave.
E eu, que desde pequena fui grudada nela feito carrapato, continuo aqui.
Olhando.
Admirando.
Aprendendo.
Amando a minha pequena Formiga.
(Tônia Carla de Castro é minha irmã e escreveu esta deliciosa crônica. Ela puxou à mamãe e tem uma memória de elefante. Já eu, uma desmemoriada, fico pedindo a ela para contar os casos - risos - )