Tema: Desilusão
Era o ano de 1956 e Antônio estava de malas prontas com destino ao Seminário do Caraça, em Catas Altas, Minas Gerais. Nessa época, morava na cidade de Luz e seria uma longa viagem. Ao embarcar, Lia, sua mãe, deu-lhe um longo abraço. Antônio nunca tinha sido abraçado por sua mãe, daquele jeito. Talvez porque sendo o sexto filho de uma família numerosa, treze no total, os carinhos maternos fossem tão ralos...
Iniciada a jornada, longa e suada, ao chegar no Caraça um dia depois da partida, sentiu o frio e a umidade da serra. Verde por todos os lados que se olhasse, adornando a cena, alta, lá estava a construção de prédios, cheirando a Deus e às coisas do céu. Mas Antônio não sossegava, não sorvia a novidade, não se conectava aos colegas, nem a Deus. Somente aquele abraço longo e emocionado de sua mãe. Ele sentiu o cheiro de mãe, o calor, o consolo, a esperança, tudo de uma só vez naquele abraço. Adoeceu. Teve febre alta, inapetência e, por dias, ficou acamado. O padre veio vê-lo. Antônio confessou que não poderia viver ali, longe dos braços da mãe. Depois de duas semanas, sem melhora, foi mandado de volta à casa paterna.
Chegou em casa mais magro, pálido, desconfiado que não seria bem recebido, pois todos esperavam que voltasse padre. E assim foi. Sem abraço, sem afeto. O pai lhe mostrou as ferramentas da roça e disse que a enxada seria sua caneta. A mãe, insatisfeita, não o recebeu com abraço, nem sorriso.
Desilusão para todo lado.