Hoje estou de folga do trabalho e ainda estou na cama ao lado da cama de papai. Faço plantão desde que mamãe se foi, assim como meus irmãos. Já fui ao blog de uma escritora fantástica, dona Branca, das estrelas do indaiá, que nome bonito! Estrela do Indaiá é sua terra e terra da minha bisavó, Dona Ritinha. E por falar nela, mamãe me contou algumas vezes a história da escolha de meu nome. Queria que fosse Rita de Cássia, para homenagear sua avó materna, porém esta lhe pediu: “Neneve, não coloque o nome de Rita em sua filha, porque quem tem este nome sofre demais.” Mamãe atendeu ao pedido da dona Ritinha. Eu já não sei bem ao certo se adiantou (risos…)
Ouço Lúcia limpando o terreiro: adivinho quando usa a vassoura (chip chip chip); quando tira a água do quiosque com o rodo (frap frap); quando arrasta algum móvel de jardim (rom brom from).
Os pensamentos estão inquietos. Um pouco de ansiedade e percebo que me agito com o futuro. Um tanto de saudade, agora entristeço com uma nota de melancolia do passado. Consciente disso, presto atenção no presente. Eu, espichada na cama, desembrulhando o presente que Deus me deu (um novo dia), digitando as palavras que tanto amo, que me consolam, dão-me esperança, fazem-me companhia. Agora sim, estou equilibrada. E, falando em equilíbrio, ontem fui ao terreiro da casa de papai e abracei o abacateiro. Abracei com força, depois com frouxidão, depois com força de novo. Chorei um mar abraçada a ele. Encostei meu peito em seu tronco cascudo, e meu ouvido esquerdo. Permaneci assim, abraçada ao pé de abacate. Pensei que se alguém me visse, talvez me julgasse doida. - Não, doida não, doída! E fui acalmando, me equilibrando, na corda bamba da tarde calorenta. Quando decidi desabraçar o abacateiro, uma ideia divertida passou pela minha cabeça: acho que ele já estava desesperado com o abraço tão demorado, a ponto de sair correndo, se pudesse. Sorri sem graça, porque ainda tinha as marcas da dor. Uma dor manhosa, aborrecida. - Querido abacateiro, gratidão! Você me trouxe o equilíbrio! Porque você é planta, talvez mais evoluído que eu. Sabe usar o sol para se alimentar, a chuva para beber. Tem seus pés fincados no chão, sem ilusões, sem ficar com a cabeça nas nuvens. Você conhece a realidade dos dias. Dá abrigo aos passarinhos e oxigena nosso ar. Sem dúvida alguma, você é mais evoluído que eu.
Cassia Caryne