Mamãe era chamada pela alcunha de Neneve. Neneve foi uma amiga muito querida de minha avó, Josefina, que quis homenagear a amiga na primogênita. Poderia ter-lhe dado este nome, Neneve, ao invés de Maria das Neves…
Na família sempre foi Neneve, mas em Lagoa da Prata, onde escolheu viver, todos a chamavam por Neneves, no plural. Fiquei pensando nisso:
Neneve, no singular, de fato a define bem: uma mulher ímpar, rara, distinta. Mas Neneves também é uma mulher plural, dona de tantos talentos! Neneves foi, de certa forma, mãe de seus irmãos, depois professora, supervisora e diretora de escola. Advogada, que abdicou da profissão, porque confessou não se sentir bem em defender o “errado”. Mãe amorosa, esposa exemplar, cozinheira prendada, costureira de reparos. Seu crochê era irrepreensível, que habilidade ela tinha para fazer trabalhos com a linha Cléa! E como na trama da linha, fazia com mestria versos, acrósticos, contos, prosas, crônicas: uma escritora formidável. E, não sei se por causa ou por consequência, tinha uma alta espiritualidade, a serviço da igreja como Ministra da Palavra por muitos anos. Uma mulher que entendeu, que quanto mais se divide o amor, mais ele aumenta.
Sendo plural ou singular, mamãe será lembrada enquanto viverem todas as pessoas que cruzaram por ela pela vida florida que levou. Não foram só alegrias, mas tinha disposição para levantar-se quando a vida lhe dava rasteiras.
E seus livros viajarão além do tempo de todos nós. Serão lidos, estudados, admirados. Neneve é atemporal. Palmas para esta grande mulher, a quem tive a honra de chamar de Mãe.
P.S. : Grata ao Fabrício Azevedo, meu colega de escola, que me inspirou esta crônica.