Cassia Caryne
O amor faz melhor favor ao que ama, do que ao amado - Cassia Caryne
Capa Meu Diário Textos Áudios E-books Fotos Perfil Livros à Venda Prêmios Livro de Visitas Contato Links
Textos

Uma mulher respeitável, minha mãe

 

Sete dias sem a presença física de minha mãe. O cérebro começa a entender que tem de arranjar um novo jeito de viver. O coração dói, mas sabe que precisa continuar batendo pelas pessoas que me amam e pelas amadas.Todas as manhãs são dolorosas, desde então. As tardes são melhores de suportar, porque estou sempre fazendo algo, trabalhando nas duas casas, na minha e na casa de meu pai. Ontem fui à Fazenda Adonai, no pé da Serra da Saudade. Não queria ir, porque tinha de tomar algumas providências aqui e uma injeção no hospital por causa da osteoporose… mas papai disse que se eu não fosse, ele não iria. Tive de ir. Fiz um almoço gostoso, que mamãe faria igualzinho, acho. A família elogiou e comeu bem. Depois fui passear no pomar, andando entre as árvores que ela plantou e molhou, até que pegassem. Experimentei conversar com ela, mostrando a florada no pé de manga, promessas de muitos frutos, caso a ventania da serra ou a chuva de granizo, no verão, permitam. Vi o Morro do Palhano e o morro do Baú e da Estrela do Indaiá. Senti imensa saudade dela. E me revoltei, por um segundo: por que ela não pediu à Deus para ficar mais um tempo conosco? Se ela tivesse pedido, Deus não negaria. Entretanto, pensei que mamãe foi plena para o outro lado da linha tênue que separa os vivos, dos mais vivos ainda. Lúcida, recuperada da cirurgia, caminhando. Nos dois dias anteriores eu fui dura com ela: “mamãe, tome consciência de que a senhora não está doente. Quebrou o fêmur e o médico consertou. Deite-se nesta cama somente para descansar um pouco. Quero a senhora sentada à mesa da cozinha, fazendo as refeições conosco. Faça seu crochê, sua palavra cruzada, suas poesias, suas orações. Tome sol no quintal.” Para casa exigido, cheguei no outro dia e ela estava lá, sentada à mesa, contando que já tinha ficado exposta ao sol. Era boa aluna, por isso era boa professora.

Pois é, ficamos sem a matriarca da família. Quando papai queria provocá-la dizia: é a “manda saia”. Mas ele mesmo sabia que ela dominava, não pelo temor ou arrogância, mas pelo amor doce e calmo. Uma mulher de uma elegância espiritual admirável! E foi com a mesma suavidade que ela pisou no céu: “com licença, São Pedro, acho que aqui é a minha nova morada!” E o Santo veio correndo, dizendo-lhe: “a senhora demorou uma eternidade para voltar para casa. Sentimos muitas saudades!”

 

 

Cassia Caryne
Enviado por Cassia Caryne em 19/07/2025
Copyright © 2025. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.
Comentários
Capa Meu Diário Textos Áudios E-books Fotos Perfil Livros à Venda Prêmios Livro de Visitas Contato Links