Sinto uma dor sem nome. Mas logo entendi que essa dor sem nome vem acompanhada de Nomes que conheço bem: Deus, em primeiríssimo lugar, gratidão, amizade e amor. Na verdade, batizei a dor de “sem nome” porque em mim tudo dói: a cabeça, a fronte, os olhos, a coluna, os pés, os braços, o coração, a alma. Porém, quem já passou pelo vale de lágrimas, sabe que podemos chamá-la de luto. Meu mundo desabou no último sábado, seis e pouca da manhã, desde que nossa amiga Laura, vizinha dos meus pais, me ligou e, com a voz mais doce do mundo, cheia de cuidado e amor, perguntou se eu estava só e que precisava de mim na casa dos pais. Entendi tudo, de uma só vez, e o desespero explodiu em gritos de dor. Mamãe evoluía bem da cirurgia de fêmur e eu estava tão segura que ela já estava completamente curada, que a morte era a coisa mais improvável do mundo. E depois, mamãe, saudável que era, independente, ativa, esperta, curiosa, inteligente, diligente, não poderia tombar. Mas pensei que um Carvalho sangra com um golpe de machado e, pode sim, tombar. Tentei interpretar a morte com a visão holística, enxergando todo o cosmo, e a transformação da natureza, onde o homem faz parte, e é natural transformar-se. Com a visão espiritual, transformar-se em luz. E por falar em luz, mamãe sempre foi uma estrela, um ser com luz própria. E viver sob a luz de uma estrela tem lá suas responsabilidades…
Desde que comecei a escrever como escritora, tenho dito que escrever organiza minha emoção. Mas todas as palavras, principalmente a poesia, que é o belo, fugiram de mim. Hoje, depois de finalmente dormir até às quatro da manhã, sinto que elas podem, timidamente, voltar. Faço aqui as primeiras garatujas… e tal garotinha quando começou a ser alfabetizada, a palavrinha “mamãe” tem um gosto, um cheiro, uma maciez e uma beleza muito especial.
Kennedy, meu irmão, chegou da América e me abraçou longamente, dizendo “eu te abraço na Cassinha, mamãe!” E como nós, irmãos, fomos gerados no mesmo útero materno, somos de algum modo nossa mãe materializada. Chegamos à conclusão que precisamos, mais do que nunca, da presença física dos irmãos para abraçar e sentir nossa mãe. Depois da tempestade de sentimentos, pensamentos e dor, o coração vislumbra a possibilidade de parar de sangrar…
É preciso continuar. É preciso amparar nosso pai, que no dia 24 de julho completaria sessenta anos de casamento. Haveria festa, se mamãe não tivesse partido. Partido meu coração, a metade dele pulsa pelo papai, pelos irmãos, pelos cunhados e cunhadas, sobrinhos, filhos de sangue e do coração, o companheiro Rossini, parentes e amigos.
Imagino que Naná estava na porta do céu e recebeu mamãe com esfuziante alegria! Ambas deram pulos de contentamento e muitos abraços de saudades! Deram as mãos e rodaram na ciranda do amor!
Cassia Caryne